Obras que marcaram o século XIX, parte 4: a literatura realista em Madame Bovary

por Leandro R. Vicente

A segunda metade do século XIX, na Europa, define-se por uma série de transformações econômicas, científicas e ideológicas que possibilitam o surgimento de uma estética anti-romântica.

Uma nova revolução industrial, caracterizada pelo avanço tecnológico e progresso científico, modifica não apenas os processos de produção, mas a própria estrutura econômica. Os negócios familiares em pequena escala são substituídos por grandes empresas, muitas vezes agrupadas em cartéis, e a população se concentra em vastos aglomerados urbanos, impelida pela industrialização. As nações tornam-se representantes de seus grupos econômicos privados, ampliam o mercado internacional e terminam por se fazer imperialistas, partindo para a conquista direta ou indireta de considerável número de países africanos e asiáticos. É o grande momento da Europa: a burguesia urbana, enriquecida pelo espólio colonial, vive o luxo, goza o poder sobre o mundo.

Um mundo que agora se explica a partir de si mesmo: Comte cria o Positivismo e a sociedade passa a ser entendida em sua existência concreta; Darwin elabora a teoria sobre a evolução das espécies; Lamarck estabelece bases reais para a Biologia; a Psicologia é associada à Fisiologia; a Medicina se torna experimental; Pasteur penetra nos segredos de microorganismos; Taine organiza padrões objetivos para a crítica literária. Eis um mundo claro, sem abismos, que já não encerra mistérios, como afirmam os cientistas da época.

As contradições, no entanto, continuam explodindo: as cidades crescem sem planejamento e não oferecem as mínimas condições de conforto e higiene; acentua-se a divisão do trabalho entre a burguesia e o proletariado; o Socialismo de Marx e o Anarquismo de Bakunin e de outros líderes ganham adeptos; irrompem revoltas de trabalhadores, como a Comuna de Paris (1871), que durante setenta dias promoverá um radical governo proletário, até a sua violenta dissolução por forças conservadoras. Nesse universo, ao mesmo tempo da euforia burguesa e do capitalismo desumano, os valores românticos entram em crise.
Já não é possível a fantasia, nem o mito da natureza, nem o fechar-se na própria interioridade. Os acontecimentos exigem a participação do artista. Agora ele é um participante do mundo, ou ao menos, um observador do mundo. É verdade que o sentimento desagradável da realidade persistirá em sua alma, herança do Romantismo. Mas, em vez de transformar esse sentimento em desabafo ou grito, como o romântico, o artista procurará examiná-lo à luz de teorias sociológicas, psicológicas ou biológicas.
Os realistas fogem às exibições subjetivas dos românticos. O escritor deve manter a neutralidade diante daquilo que está narrando, e dentro de alguns limites, não confundir sua visão particular com a visão e os motivos dos personagens. Por isso mesmo, há um domínio das narrativas em terceira pessoa sobre as narrativas em primeira pessoa. A terceira pessoa favorece a impressão de que os personagens realizam seus destinos sem a interferência do sujeito que as criou.
O reflexo do racionalismo ideológico e científico da época, significa a possibilidade de uma investigação objetiva dos indivíduos, como tais, e como agentes de grupos da sociedade. Os resultados são: a análise psicológica e a tipificação social.
A análise psicológica é o estudo dos caracteres, motivações e tendências da vida psíquica, considerada em suas relações com o momento histórico, o meio ambiente e com os instintos mais subterrâneos dos homens. O grande analista de almas é aquele que não diz tudo a respeito do personagem, de forma que este tenha sempre um abismo inexplorado que, repentinamente e com coerência, possa vir à tona.
A tipificação social corresponde à destruição da ideia de indivíduo sem vínculos com a realidade concreta. As suas ações, gestos e falas, seus conflitos constituem as representações particularizadas do grupo ao qual pertencem.
A ideia de que o escritor deve reproduzir fielmente o real é um dos princípios centrais do movimento. Essa semelhança com aquilo que seria a verdade da vida objetiva e da vida interior leva-o a renunciar a tudo que pareça improvável ou fantástico. Nada dos velhos truques narrativos dos românticos que davam a impressão de artificialidade ou de invenção ficcional. O leitor precisa acreditar na veracidade do texto, o qual lhe passará um sentido de totalização e abrangência, como se a própria realidade estivesse ali, naquelas páginas.
A literatura deve refletir os mecanismos da vida, eis o projeto do autor realista. E, para que haja este reflexo, esta mimese, são necessárias a observação e a experiência. O sentido da observação, em especial, torna-se o aspecto preponderante, na medida em que diminuem as chances de participação do artista na complexidade cada vez mais intrincada do mundo urbano. Ele não pode mais vivenciar todas as situações humanas. Busca então a sua faculdade de ver, registrar entrevistar e informar-se. Assim, o realista estabelece um novo procedimento para a composição literária.
Quanto ao elemento imaginário, nota-se que ocupa um segundo plano, sem perder, no entanto, sua função indispensável de fecundar criativamente os dados concretos, recolhidos da realidade.
Se os românticos tinham o fascínio do passado, tanto o histórico como o individual, os realistas, pela necessidade da verossimilhança, escrevem sempre sobre fatos, situações e personagens relacionados com a vida presente, com a vida que lhes é contemporânea. As grandes cidades com sua abundância de ofertas, suas infinitas chances de realização pessoal, amorosa e intelectual e, ao mesmo tempo, com seus inúmeros horrores e perigos, envolvem os artistas, fazendo-os descobrir as contradições da modernidade.
Descrentes das possibilidades da burguesia dominante em estabelecer um sentido justo para a existência, os artistas do período assumem posições de crítica e indignação frente a classe da qual quase todos procedem. Alguns enxergam no socialismo – um socialismo em geral utópico – a saída, tornando-se ardorosos propagadores de um novo sistema histórico. Outros, voltam-se para um cristianismo primitivo, que pintam como única alternativa de uma autêntica comunidade humana. A maioria, contudo, expressa seu desprezo pelos valores burgueses sem se afeiçoar a alguma ideologia reformista ou revolucionária. Muitos caem na amargura e no niilismo (descrença absoluta).
Estabelece-se uma nova linguagem, entendida agora como fruto do trabalho e não da inspiração. Decorre de um longo processo de síntese, de cortes, de eliminação do supérfluo, de despojamento do acessório, de busca da palavra exata.
O realista luta com as palavras, é um torturado pela forma, um obcecado pela adequação entre o pensamento, a ideia, o assunto e a linguagem que os reveste. Em síntese, o como dizer se torna tão fundamental como aquilo que é dito.

Importância na contribuição da literatura francesa

A precoce configuração da França como estado nacional e sua situação geográfica peculiar, que torna o país um privilegiado centro de comunicação entre as culturas do sul e do norte, contribuem para explicar a riqueza e a importância histórica da literatura em língua francesa.
Durante a Idade Média, as canções gaulesas, entre elas a célebre Canção de Rolando, foram o modelo de numerosas epopeias nacionais, e a literatura do “amor cortês” teve também sua fonte principal em textos franceses, por sua vez elaborados sobre temas britânicos — as lendas do rei Artur — e provençais.
Posteriormente, a ruptura com o preceito medieval preconizado pelo humanismo italiano encontrou pronta acolhida na França, graças a autores como o poeta François Villon, o prosista François Rabelais e, já dentro de uma atmosfera plenamente renascentista, Michel de Montaigne, cujos ensaios iniciaram a brilhante história da prosa filosófica francesa, e o grupo poético da Plêiade.
No século XVII, e em particular no reinado de Luís XIV, as letras francesas alcançaram sua plena maturidade e se diferenciaram nitidamente das tendências barrocas predominantes na Europa, especialmente por seu classicismo formal e forte sentido ético. A prosa foi cultivada tanto por filósofos como René Descartes e Blaise Pascal quanto por satiristas, cronistas e moralistas como La Fontaine, La Bruyère e La Rochefoucauld. O teatro, que conheceu sua idade de ouro dramática com Pierre Corneille e Jean Racine, deu à comédia universal um de seus momentos de maior brilho com a obra incisiva de Molière. Esses foram os dois gêneros que marcaram esse excepcional período literário, que continuou de forma não menos brilhante no Século das Luzes.
Os autores franceses do século XVIII, como Voltaire, Montesquieu, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau, foram de fato os principais difusores das ideias iluministas na Europa. Seus escritos, que abarcavam diversos gêneros, com predominância do ensaio, e tinham manifesto propósito didático, deram renovado esplendor à literatura francesa, a qual experimentaria uma profunda transformação depois de 1789.
Embora as primeiras décadas do século XIX continuassem dominadas pelas regras neoclássicas, a obra de escritores como madame de Staël e François-René de Chateaubriand antecedeu a eclosão romântica que, a partir de 1830, se impôs em todos os setores literários graças ao grande Victor Hugo, a Alfred de Musset e a Alphonse de Lamartine, entre outros autores. Em meados do século, o impulso do romantismo começou a decrescer, embora sua exaltação da consciência subjetiva tenha perdurado nos poetas simbolistas — Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé. Estes autores, com diferentes abordagens, iniciaram uma renovação estilística anunciadora das posteriores tendências de vanguarda.
Entre os demais gêneros destacou-se sobretudo o romance, no qual, apesar da popularidade da crítica de costumes, os feitos mais significativos foram na área do romance realista, penetrante instrumento de análise moral e social manipulados pelo gênio de Honoré de Balzac, Stendhal e Gustave Flaubert. Já no fim do século, predominou a tendência naturalista que teve em Émile Zola seu grande momento.

Os primórdios do Realismo: Madame Bovary, de Flaubert

O Realismo constitui um termo bastante amplo que serve para designar as mais variadas tendências artísticas. No sentido de “arte que pretende a reprodução exata e sincera do ambiente social e da época em que vivemos”, ele já aparece em exposições de pinturas. Porém, como afirmação literária de uma doutrina estética, surge em 1857, na França, com a obra Madame Bovary, de Gustave Flaubert, sua obra mais representativa, sua obra-prima.
Trata-se da história trágica de uma insensata mulher romântica e seu absurdo marido apaixonado, seus dois indignos amantes e seus vizinhos numa cidadezinha do interior da França.
Colocando a romântica Ema Bovary em contato com a realidade, Flaubert reflete sobre a impossibilidade de concretização das fantasias sentimentais. Ela sonha com uma vida diferente e excitante, ao lado de alguém que seja a encarnação de um príncipe encantado. A decepção com o marido e a busca do mundo de beleza, prazer e refinamento que os textos românticos lhe haviam mostrado, carregam-na em direção ao adultério. Trai duas vezes e em ambas as traições experimenta a “grande paixão” e em seguida o abandono do amante. Desiludida, compreende a impotência e a alienação romântica de seus desejos, mas não tem forças para suportar a grosseria e o utilitarismo da existência pequeno-burguesa, preferindo o arsênico à lenta asfixia de um cotidiano vazio.
Embora Flaubert tenha buscado construir nesta obra um notável romance, sólida e belamente planejado e escrito, algumas críticas lhe são imputadas. Afora faltas menores de construção, das quais o primeiro capítulo constitui um exemplo, faz-se necessário abordar duas outras questões de ordem crítica. Todo o ambiente, Tostes e Rouen e a campanha normanda, é apresentada, no decurso de todo o romance, como uma série de deliciosas paisagens, com as quais o leitor deve se deliciar gratamente: é quase como se os leitores estivessem passeando pela galeria de Vermeers. Mas quem é que está vendo e gozando estes cenários no romance? Exceto em poucas ocasiões, ninguém está vendo, que elas estão sendo precisa e amorosamente descritas por Flaubert. Poder-se-ia objetar que Flaubert tem o direito, como outros romancistas, de descrever o mundo em que seu drama se desenvolve; mas se está buscando oferecer um completo realismo, uma narrativa objetiva em que não se deve intrometer e no entanto, durante todo o tempo pode-se sentir a sua presença, mostrando o cenário não como seus personagens o vêem, mas como ele o veria. Então, há algo de errado e certamente também, com a própria Madame Bovary. Ela está cuidadosamente construída e movimentada, mas pode-se sentir no decorrer de todo o romance que ela é a mesma personagem viva. Ela possui uma personalidade única, própria, ou parece sentir, pensar proceder, simplesmente como Flaubert quer que ela sinta, pense, proceda, ou siga por onde ele decidiu que ela vá? É ela realmente igual a si mesma do princípio ao fim, ou é uma pessoa numa passagem e totalmente diferente em outra? Será que ela sempre comoverá como uma mulher atormentada em busca do amor ideal, inatingível? E Charles de Bovary e a criança, comovem quando o romance chega ao fim?
A obra causa enorme impacto na Europa e é oficialmente censurado. Flaubert sofre acusação pública de incentivo à imoralidade e embora absolvido, seu nome fica associado ao escândalo e à denúncia da hipocrisia da moral burguesa. Por outro lado, dezenas de jovens escritores, no mundo inteiro, tomam o autor de Madame Bovary como modelo insuperável de construção romanesca e se inspiram nessa obra para fundar ou desenvolver os princípios realistas em seus países.
Embora Flaubert tenha buscado tratar os seus personagens como representantes de certos grupos sociais, e esses só possuem significado dentro das narrativas se expressarem as vivências e as ideias de seus grupos, isto parece não ter ocorrido em Madame de Bovary. Por outro lado desenvolve o que se convencionou chamar de: “método analítico de observação psicológica”, e os seus personagens são construídos através de pormenores mínimos, de pequenas apreciações, de matizes por vezes contraditórios, obrigando o leitor a completá-los e a reinterpretá-los. Entretanto, é importante refletir até que ponto a representatividade histórica e a análise psicológica dos personagens, típicas do Realismo, sedimentaram-se em Flaubert.

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