Obras que marcaram o século XIX, parte 5: a literatura realista em Dorian Gray

por Leandro R Vicente

A história da literatura britânica e suas manifestações

A consolidação da literatura britânica, que integra a produção em língua inglesa das ilhas britânicas e manteve sempre notável autonomia quanto às diferentes correntes européias, foi relativamente tardia devido à difícil integração das influências latina e francesa no quadro da herança anglo-saxônica — Beowulf — e, em menor medida, céltica — lendas do rei Artur. A figura de Geoffrey Chaucer, cuja obra fixou, no fim do século XIV, os fundamentos do inglês moderno, costuma ser tomada como ponto de partida da grande tradição literária britânica, que chegou à maioridade no Renascimento, com autores como Edmund Spenser e Philip Sidney, e seu apogeu na época elisabetana, graças à “poesia metafísica” e ao florescimento teatral liderado pela figura ímpar de William Shakespeare.

O gênio de Stratford-upon-Avon, cuja obra dominou os gêneros dramáticos da comédia, da tragédia e do drama histórico, além das notáveis contribuições líricas, foi preeminente na literatura britânica. Sua importância obscureceu, de certo modo, autores tão notáveis como Beaumont e Fletcher e Ben Jonson.

Após as convulsões políticas e religiosas do século XVII, simbolicamente representadas nos textos de John Milton, a instauração da monarquia parlamentar abriu caminho para um novo ressurgir da criação literária, que até meados do século seguinte se caracterizou pela primazia dos preceitos neoclássicos. Essa primazia foi particularmente notável nos campos do teatro e da poesia, dominados pela obra e as concepções estéticas de Alexander Pope, enquanto a prosa se distinguiu pela afirmação gradual do romance realista — Daniel Defoe, Henry Fielding — e pela renovação estilística promovida por autores como Jonathan Swift, cujas sátiras são um dos pontos culminantes da tradição humorística britânica. Finalmente, o ensaio e a prosa filosófica viveram momentos áureos graças a Thomas Hobbes, John Locke e David Hume, sendo os dois últimos mestres do Iluminismo europeu.

A gradual ascensão das novas concepções românticas, preludiadas pela obra de William Blake e consolidadas graças à lírica de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, marcou decisivamente as primeiras décadas do século XIX. Assim, poetas como Lord Byron, Percy Bysshe Shelley e John Keats exerceram decisiva influência no culto do romantismo europeu ao gênio e à liberdade individual, enquanto Walter Scott fixou em seus relatos os fundamentos do moderno romance histórico.

Com a ascensão da rainha Vitória ao trono da Inglaterra, em 1837, iniciou-se a “era vitoriana”, apogeu do império britânico e período literário de extraordinária fertilidade. No terreno poético, o retorno ao classicismo preconizado por Alfred Tennyson não impediu a sobrevivência de motivos românticos, que evoluíram paulatinamente para novas formas expressivas. A prosa adquiriu singular riqueza graças a romancistas como Jane Austen e George Eliot, dotadas de aguda penetração psicológica; ao humorista William Thackeray, a Robert Louis Stevenson e ao grande Charles Dickens, cuja vasta produção registrou com fidelidade os valores, princípios e contradições da sociedade britânica da época. Já na mudança do século, Oscar Wilde, com sua ironia permeada de amargor, e Rudyard Kipling, escritor de profundo lirismo e nostálgico defensor do ideal imperial, testemunharam com suas obras a inexorável quebra dos fundamentos ideológicos e sociais que caracterizaram o período vitoriano.

O retrato de Dorian Gray, de Wilde

Quer em seus hábitos, quer em seus textos, Wilde assumiu de início a atitude de um dândi, ligado, com um comportamento extravagante, ao esteticismo da arte pela arte, afirma Barsa CD. Seu talento superou no entanto essa fase superficial, para florescer com pujança em obras-primas maduras, depois de sua carreira ser cortada pelo escandaloso processo por homossexualismo que o levou à prisão.

Oscar Fingall O’Flahertie Wills Wilde nasceu em Dublin, Irlanda, em 16 de outubro de 1854. De pais sofisticados e ricos, estudou em Oxford onde, sob a influência de Matthew Arnold, John Ruskin e Walter Pater, liderou um movimento que combatia os filisteus da cultura e propunha um hedonismo extremado. Brilhou na sociedade londrina com seu talento verbal. Os trocadilhos e pilhérias que o tornaram famoso, não obstante, criticavam muitas vezes o próprio modo vitoriano de vida, marcado pelo apego às convenções.

Nos diversos gêneros que abordou, Wilde criou obras inesquecíveis, como The Happy Prince and Other Tales (1888; O príncipe feliz e outras histórias) e The Picture of Dorian Gray (1891; O retrato de Dorian Gray), este seu único romance e um de seus livros mais lidos. A poesia contida em Poems (1881; Poemas) apresenta alguns poemas isolados de força sugestiva e patética. Entretanto, não foi muito estimada pela crítica do século XX, que sempre lhe reprovou o sentimentalismo excessivo.

É opinião unânime que Wilde se expressou com maior desenvoltura como autor teatral, renovando a dramaturgia vitoriana com sua verve e seus paradoxos, cintilantes de agudeza e de concisão verbal. Um pouco à maneira das comédias do período da restauração, suas peças principais foram armas brandidas contra as convenções da “boa sociedade”, expondo-lhe sem piedade a hipocrisia. Entre essas peças estão Lady Windermere’s Fan (1893; O leque de Lady Windermere), A Woman of No Importance (1893; Uma mulher sem importância) e An Ideal Husband (1895; Um marido ideal). Bem mais conhecida e ainda muito encenada é The Importance of Being Earnest (1895; A importância de ser sério), considerada sua obra-prima no gênero e cujo título original encerra um jogo de palavras entre earnest (sério) e Ernest (Ernesto).

Como ensaísta, Wilde publicou Intentions (1895; Intenções). Em francês, escreveu o drama poético Salomé (1893), transformado por Richard Strauss em ópera (1905). De seus dias de prisão brotaram The Ballad of the Reading Gaol (1898; A balada do cárcere de Reading) e o depoimento em prosa De profundis (1905), longa carta de recriminações a Lord Alfred Douglas, seu ex-amante e causa de toda sua desgraça. Oscar Wilde, libertado em 1897, deixou para sempre a Inglaterra e, em extrema pobreza, morreu em Paris em 30 de novembro de 1900.

Como relata Rollemberg, no dia primeiro de dezembro de 1900, uma nota de obituário do jornal inglês The Times pegou muitas pessoas de surpresa, pois em pouco mais de dez linhas, a pequena notícia dava conta de que, na tarde anterior — 30 de novembro —, Oscar Wilde havia morrido de meningite em um obscuro hotel do Quartier Latin. O veredicto que o júri lhe impôs em maio de 1895 devido a sua conduta destruiu para sempre sua reputação e o condenou a uma obscuridade para o resto de seus dias, afirma o autor. Para muitos, continua, o espantoso não era que Wilde tivesse morrido aos 46 anos; o surpreendente era que Wilde ainda estivesse vivo. Com a exceção de um grupo de amigos que ainda o visitava em seu exílio em Paris, o autor de O retrato de Dorian Gray, que tanto furor havia causado na sociedade londrina uma década antes, estava completamente esquecido e relegado não a um segundo plano, mas sim a um limbo de onde apenas a certidão de óbito, ironicamente, o resgatou.

Rollemberg afirma que Wilde havia chocado os salões ingleses com suas tiradas agudas, suas frases de efeito e comportamento um tanto inadequado para a realidade vitoriana de então. Wilde morreu no momento em que o tribunal de Old Baley o condenou a dois anos de trabalhos forçados por seu homossexualismo. Em seu lugar, diz o autor, surgiu o prisioneiro C.3.3. — como era conhecido no cárcere — e, depois, Sebastian Melmoth, o nome que adotou quando foi posto em liberdade e partiu para o continente. Tal metamorfose — C.3.3.-Melmoth — no entanto, encerra muito mais elementos do que uma simples troca de nomes e de realidades. Ela traz em seu bojo toda uma mutação de postura e de forma de pensar a vida. Para Rollemberg, qualquer um que tivesse recebido um impacto como o que Wilde recebeu pararia, necessariamente, para refletir e uma mudança de comportamento acabaria sendo inerte a essa nova condição. Para o autor, no momento em que Wilde se torna um anjo caído, quando perde sua condição de intocado e intocável, ele se torna mais humano. E isso faz toda a diferença. Para ele, que cultivava a tradição grega, perder o seu posto em seu Olimpo particular, perder a condição de semideus, que acreditava ter, foi um golpe profundo. Mas, de alguma forma, afirma Rollemberg, foi também a sua redenção.

Referências

ROLLEMBERG, M. Morte e redenção do dândi. Cult: revista brasileira de literatura, São Paulo, Lemos Editorial & Gráficos, v. 4, n. 40, p. 49-63., nov. 2000.

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