Obras que marcaram o século XIX, parte 7: a literatura realista em Guerra e paz

por Leandro R Vicente

A literatura da Europa oriental: originalidade na produção russa

Assim como na literatura alemã, o desenvolvimento literário da Europa oriental manteve uma estreita relação com a turbulenta história da região, que não só determinou a contínua formação e o desmembramento de diferentes estados nacionais, como também a predominância temporária de algumas línguas sobre outras.
Em virtude de sua importância e originalidade, destaca-se no quadro da Europa oriental a literatura russa, caracterizada por sua intensidade espiritual e vinculação ao cenário e às tradições nacionais, que no entanto durante longo tempo se limitou à composição de cantos populares e épicos, traduções de textos sagrados e algumas crônicas históricas. No decorrer dos séculos XVII e XVIII, a crescente secularização do estado e a influência das correntes européias permitiram a evolução gradual da criação literária, que se consolidou plenamente no século XIX.

Figuras decisivas nesse processo foram, entre outros, Aleksandr Puchkin — que cultivou todos os gêneros e inspirou a evolução posterior do romantismo e do realismo —; o poeta romântico Mikhail Lermontov, Nikolai Gogol, grande nome do romance realista, e, já na segunda metade do século XIX, o dramaturgo Anton Tchekhov e um excepcional grupo de romancistas integrado por Ivan Turgueniev e dois dos grandes mestres do romance universal: Fiodor Dostoievski e Lev Tolstoi.

Guerra e paz, de Tolstoi

Em Tolstoi, reconhecido como um dos maiores escritores de todos os tempos, o individualismo e a paixão conviviam com desejos de transformação espiritual que o levaram, no fim da vida, a um anarquismo cristão oposto a toda autoridade eclesiástica e política.

Lev Nikolaievitch, conde de Tolstoi, nasceu na propriedade rural da família, em Iasnaia-Poliana, província de Tula, em 9 de setembro (28 de agosto pelo calendário juliano) de 1828. Com a morte prematura dos pais, foi educado por preceptores. Em 1844, ingressou na Universidade de Kazan, mas três anos depois, decepcionado com o ensino formal, voltou a Iasnaia-Poliana para administrar a propriedade e conduzir a própria educação. Atraído pela agitação social de Moscou e São Petersburgo, não foi muito bem-sucedido em seus propósitos. Em 1851, o sentimento de vazio existencial levou-o a juntar-se ao irmão, soldado no Cáucaso. No ano seguinte, alistou-se e lutou bravamente contra tribos montanhesas. É dessa época seu primeiro trabalho publicado: Detstvo (1852; Infância), que denota a influência do inglês Laurence Sterne.

Transferido, participou da guerra da Criméia, experiência descrita em Sevastopolskiie rasskazi (1855; Contos de Sebastopol). Com o fim da guerra, em 1856, voltou a São Petersburgo, onde foi recebido como ídolo pelos círculos literários. Irritado com o assédio, voltou a Iasnaia-Poliana. Em 1857, esteve na França, Suíça e Alemanha. As críticas às histórias baseadas nessas viagens abalaram seu interesse pela literatura. Mesmo assim, entre 1855 e 1863, escreveu contos que prenunciam suas concepções posteriores sobre os danos que uma sociedade materialista causa à pureza humana.
No final da década de 1850, preocupado com a precariedade da educação no meio rural, Tolstoi criou em Iasnaia uma escola, para filhos de camponeses, cujos métodos anteciparam a educação progressiva moderna. Movido pelo novo interesse, o escritor viajou mais uma vez pela Europa, publicou uma revista sobre educação e compilou livros didáticos de grande aceitação. Em 1862, casou-se com Sônia Andreievna Bers, jovem com amplos interesses intelectuais com quem teve 13 filhos. Durante 15 anos, dedicou-se intensamente à vida familiar.

Foi nessa época que Tolstoi produziu os romances que o celebrizaram — Voina i mir (1865-1869; Guerra e paz) e Anna Karenina. O primeiro, que consumiu sete anos de trabalho, é considerado uma das maiores obras da literatura mundial. A narrativa gira em torno de cinco famílias aristocráticas durante as guerras napoleônicas. As passagens mais criticadas do romance são aquelas em que o autor expõe sua concepção determinista da história, segundo a qual as ações dos chamados “grandes homens” dependem das ações de incontáveis figuras anônimas ou menos proeminentes, o que significa que não há livre-arbítrio. O vigoroso otimismo de Guerra e paz, fruto da convicção de que o esforço pessoal poderia levar a um modo de existência aberto tanto à natureza quanto às responsabilidades sociais, sofreu uma sensível quebra, que transparece em Anna Karenina. A descrição de um amor adúltero, que termina em tragédia pelo peso da hipocrisia social, constituiu o reflexo da profunda crise espiritual em que Tolstoi se encontrava imerso.

O gênio de Tolstoi brilhou ainda na criação de uma série de contos, como Smert Ivana Ilitcha (1886; A morte de Ivan Ilitch), Kreitserova sonata (1889; A sonata de Kreutzer) e Joziiain i rabotnik (1895; Amo e criado), em que suas idéias não aparecem de forma explícita, mas são sugeridas graças à maestria das análises psicológicas. Em 1889, surgiu o romance Voskreseniie (1900; Ressurreição). Considerado inferior aos anteriores, é uma poética descrição da relação amorosa entre um nobre e uma jovem que, por ele seduzida, se prostitui.

Após sua “conversão”, Tolstoi dedicou-se a uma vida de comunhão com a natureza. Deixou de beber e fumar, tornou-se vegetariano e passou a vestir-se como camponês. Convencido de que ninguém deve depender do trabalho alheio, buscou a auto-suficiência e passou a limpar seus aposentos, lavrar o campo e produzir as próprias roupas e botas. Em nome da castidade, procurou dominar os desejos carnais em relação à esposa. Engajou-se em atividades filantrópicas e foi a contragosto que viu sua casa atrair visitantes interessados em suas idéias e cercada de colônias de discípulos que pretendiam viver segundo seus ensinamentos.

Sua esposa conseguiu obter os direitos sobre as publicações do marido anteriores a 1880 e reeditou-as por conta própria, para manter o nível econômico da família. Por essa razão, alguns escritos notáveis dessa época só foram publicados postumamente. Num rasgo final de independência, aos 82 anos de idade, Tolstoi abandonou a casa em companhia de Aleksandra, sua médica e filha mais nova, em busca de um lugar onde pudesse sentir-se mais próximo de Deus. Dias depois, em 20 de novembro (7 pelo calendário juliano) de 1910, Tolstoi morreu de pneumonia na estação ferroviária de Astapovo, província de Riazan.

Para Seymour-Smith, Guerra e paz retrata em palavras, como nunca antes, a guerra. O autor se pergunta onde é possível encontrar um relato tão vivo sobre a tentativa de Napoleão de conquistar a Rússia. Para ele, alguns fatos não correspondem à realidade ou foram deliberadamente mudados; mas também é verdade que a percepção da guerra dos seus contemporâneos também estava errada.

Segundo o autor, o sentido de imediatismo do romance é único, fazendo com que os leitores reflitam sobre o que Tolstoi quer que reflitam: a vida continua, apesar dos romances. Diz que o maior defeito da obra é a forma como apresenta a sua famosa (ou infame) visão da História. Tolstoi diz que tudo está predestinado, mas que não se pode viver, a não ser que se imagine possuir o livre-arbítrio. Assim, Seymour-Smith afirma que, por mais que Guerra e paz falhe em não apresentar uma visão compatibilista no sentido filosófico, transmite mais do que qualquer tratado didático já transmitiu. Por compatibilista o autor entende uma visão na qual o livre-arbítrio se reconcilia com o determinismo, como nas filosofias de Hobbes, Leibnitz, Hume e até mesmo de Locke.

Com o romance, para Seymour-Smith, Tolstoi consegue passar a sensação da Rússia ameaçada de 1812, mesmo tendo nascido em 1828, e o faz melhor do que qualquer historiador. Para o autor, Guerra e paz não é não pode ter sido completamente bem-sucedido. Em seu retrato profundamente humano e convincente de uma nação ameaçada de invasão e seres humanos sob o impacto da violência da guerra, o romance conseguiu o que Tolstoi jamais conseguira como moralista e pregador.

Referências

SEYMOUR-SMITH, M. Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade: a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. 678 p.

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