Obras que marcaram o século XIX, parte 8: a filosofia e Comte

por Leandro R Vicente

Considera-se como contemporânea a filosofia que se estende, dentro da imprecisão cronológica própria das produções culturais, ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX. A filosofia contemporânea, em suas linhas mais fundamentais e características, pode ser mais adequadamente compreendida em relação à obra de Hegel.

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Para Navarro Cordón e Calvo Martínez, a filosofia contemporânea constitui em grande medida uma reação contra o sistema hegeliano, ao mesmo tempo que retoma poucas das suas análises e interrogações. A mais notável e radical reação contra o sistema de Hegel é feita por Marx. O marxismo, originário da esquerda hegeliana, distingue e separa o sistema hegeliano (idealista) do método dialético. Aceitando e transformando este último, a filosofia marxista “inverte” o sistema de Hegel, propondo uma visão dialética-materialista da consciência, da sociedade e da história. Outra reação contra o hegelianismo — reação estreitamente vinculada à situação econômica, social e intelectual resultante da revolução industrial — é representada pelo positivismo, especialmente o de Comte. Neste caso, reage-se contra o “racionalismo” hegeliano naquilo que possa ter de menosprezo da experiência, com a pretensão de instaurar um saber positivo, capaz de fundamentar uma organização político-social nova. Como Marx, Comte conserva, no entanto, embora transformando-o, um momento importante do hegelianismo: a ideia de “espírito objetivo”. O positivismo (tomado, em geral, como uma atitude renitente à especulação filosófica e propenso a considerar a ciência como forma de conhecimento, não só modelar, mas exclusiva) constitui, além disso, uma constante na história do pensamento. Apesar das suas notáveis diferenças na maneira de expor os problemas, é possível reconhecer esta linha no empirismo do século XVIII, no positivismo do século XIX e no positivismo lógico ou empirismo lógico do século XX.

Curso em filosofia positivista, de Comte

O positivismo, doutrina filosófica elaborada por Auguste Comte e de grande influência no Brasil, conferiu ao estudo dos fatos sociais o caráter de disciplina sistemática. O nome sociologia foi empregado pela primeira vez pelo próprio Comte.

Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte nasceu em Montpellier, França, em 19 de janeiro de 1798. Aos 16 anos ingressou na Escola Politécnica de Paris, da qual foi expulso dois anos depois, por liderar um movimento de protesto. Passou então a viver de aulas particulares e colaboração em jornais. Foi secretário do banqueiro Casimir Périer e discípulo de Claude-Henri de Rouvroy, conde de Saint-Simon. Este, um dos teóricos franceses do socialismo utópico, orientou-o para o estudo das ciências sociais e transmitiu-lhe duas idéias básicas, que orientaram seu pensamento daí por diante.
Em 1825 conheceu Caroline Massin, jovem prostituta com quem viveu algum tempo e logo depois desposou. No ano seguinte inaugurou um curso público para exposição de suas idéias. Deprimido por constantes desentendimentos com a mulher, caiu em profundo esgotamento nervoso e, em 1827, tentou o suicídio ao atirar-se de uma ponte nas águas do Sena. Salvo por um guarda, foi internado num asilo. Tratado por Jean Esquirol, pioneiro da psiquiatria científica, recuperou-se e retomou o curso. Em 1930 ficou preso durante três dias por recusar-se a servir à Guarda Nacional.

Dedicou os 12 anos seguintes à publicação do Curso em filosofia positivista, em seis volumes, e a dar aulas gratuitas para operários. Nessa época, Comte sustentava que as diversas ciências já haviam atingido a positividade, mas o sistema ainda estava incompleto. Era necessário uma nova disciplina, que ele chamou física social ou sociologia, que figuraria num quadro de ciências dispostas em grau de generalidade decrescente e complexidade crescente, a saber: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia. Na segunda fase de sua carreira, acrescentou uma sétima ciência, a moral.

Em 1837 morreu sua mãe e logo depois Caroline abandonou-o definitivamente. Comte passou a viver em extrema solidão e, para distrair-se, começou a freqüentar a Ópera e a ler os clássicos — Virgílio, Dante, Shakespeare, Cervantes. A avalanche de publicações de autores contemporâneos levou-o então a pregar um maior rigor seletivo nas leituras, no processo que chamou de “higiene cerebral”, pelo qual foi alvo de comentários irônicos. Em outubro de 1844 conheceu a escritora Clotilde de Vaux, que também tivera uma experiência conjugal frustrada, por quem apaixonou-se. Ambos desfrutaram de uma bela e intensa amizade e de uma completa identidade de pontos de vista. Queriam uma nova moralidade, uma nova religião e um novo conceito de casamento. Esse foi seu relacionamento mais feliz e, ao mesmo tempo, mais melancólico. Clotilde morreu dois anos depois e Comte levou a marca dessa veneração quase religiosa até o fim de sua vida.

Novamente solitário, Comte dedicou-se integralmente à instituição da religião da humanidade, que logo se tornou influente em numerosos países, como Brasil, Chile e México. O filósofo impregnou-se de misticismo, criou um sacerdócio, sacramentos e orações, além de propor para seus adeptos uma rígida disciplina. Suas principais obras dessa fase são Sistema de política positiva (1851-1854) e Catecismo positivista (1852).

O desejo de firmar e divulgar as bases do positivismo levou Comte a um empenho obsessivo e à dedicação em tempo integral à propaganda de sua nova religião, com palestras públicas, cartas a monarcas, políticos e intelectuais de todo o mundo e publicação de livros. Seu esforço foi bem correspondido. Adeptos do mundo inteiro acorreram a sua casa em Paris, de onde saíram maravilhados pelo brilho e a serenidade do mestre. A correspondência de Comte com as sociedades positivistas em todo o mundo era vastíssima. Sua saúde, no entanto, ressentiu-se de tão intensa atividade. Em conseqüência de uma gripe, Auguste Comte morreu em Paris, em 5 de setembro de 1857.

Segundo Seymour-Smith, a influência de Comte foi enorme. Em boa parte, afirma, isto se deve à tradução do seu livro para o inglês em 1853. Foi levado muito a sério em seu século por pensadores como Marx (sobre quem teve uma influência seminal), John Stuart Mill, George Eliot e seu parceiro George Henry Lewes, Thomas Hardy e por um grande número de intelectuais e escritores franceses, ingleses e americanos. Essas pessoas, afirma Seymour-Smith, haviam perdido sem dúvida sua fé no cristianismo, mas não pretendiam abrir mão do que pensavam ser as genuínas vantagens que ele oferecia. Para o autor, Comte tem uma enorme importância histórica — e Durkheim, assim como Mill, o levou a sério.

Seymour-Smith afirma que Comte não era reducionista; manteve sempre sua visão fortemente evolucionista, ou seja, cada ramo do conhecimento não pode progredir verdadeiramente até que tenha evoluído de um estado primitivo. Sua observação meticulosa desses aspectos influenciou profundamente o modo de construção científica do saber humano.

Referências

NAVARRO CORDÓN, J. M.; CALVO MARTÍNEZ, T. Filosofia da idade contemporânea. In: Historia da filosofia. v. 3. Lisboa: Edições 70, 1984. p. 7-9.

SEYMOUR-SMITH, M. Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade: a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. 678 p.

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