Obras que marcaram o século XIX, parte 10: a filosofia e Assim falou Zarathustra, de Nietzsche

por Leandro R. Vicente

Segundo Seymour-Smith, Friedrich Nietzsche está entre os mais influentes pensadores da modernidade. Entretanto, foi virtualmente ignorado até quase o final do século em que viveu. Sua vasta influência só começou a se fazer sentir depois que seus trabalhos foram popularizados, inicialmente através de palestras dadas pelo crítico Georges Brandes, em Copenhague, em 1888. Assim falou Zarathustra, prosa poética, mais bem descrito como uma experiência literário-filosófica, é seu livro mais popular e comumente considerado sua obra-prima. Quando da sua publicação, o trabalho praticamente ignorado, afirma Seymour-Smith. Nietzsche publicou as primeiras três partes por sua conta e sentiu-se realmente desencorajado de publicar a quarta parte, que, finalmente, publicou por conta própria com poucos exemplares.

Segundo White, no pensamento histórico, como em quase tudo o mais na atividade cultural do século XIX, Friedrich Nietzsche representou um momento decisivo, porquanto rejeitou as categorias de análise histórica que os historiadores vinham utilizando desde a década de 1830 e contestou a realidade de qualquer coisa a que se pudesse dar o nome de processo histórico, no qual se apoiassem essas categorias. Em sua quase totalidade, as obras de Nietzsche contêm um discurso sobre a consciência histórica ou extensas referências a ela, assim como críticas à reflexão histórica convencional e sugestões no sentido de aplicar as idéias históricas a finalidades criativas.

Para White, o escopo de Nietzsche como filósofo da história era destruir a noção de que o processo histórico deve ser explicado ou posto em enredo de algum modo determinado. Dissolvidas estão as próprias noções de explicação e colocação de enredo. Segundo o autor, elas cedem lugar à noção de representação histórica como pura música. No entanto, essa concepção de representação histórica tem seus alicerces conceptuais. Pressupõe um léxico, uma gramática, uma sintaxe e um sistema semântico através do qual o campo histórico pode receber um certo número de significados possíveis.

Segundo o autor, a produção de Nietzsche — tanto em Assim falou Zarathustra como em O nascimento da tragédia — ao estabelecer uma dicotomia dentro da própria linguagem, opondo radicalmente a língua poética à linguagem conceptual, e vendo nesta uma “queda” do alto da inocência daquela, frustrou qualquer possibilidade de encontrar um espaço em que as intuições artísticas e o conhecimento científico confluíssem para a tarefa única de aprender a significação do processo histórico e nele determinar o lugar do homem. Ao separar a arte da ciência, da religião e da filosofia, White afirma que Nietzsche pensou que a estivesse devolvendo à união com a “vida”. Na realidade, continua, forneceu as bases para voltá-la contra a vida humana, pois visto que para ele a vida nada mais era que a vontade de potência, ligou a sensibilidade artística a essa vontade e desviou a vida daquele conhecimento do mundo sem o qual ela não pode produzir nenhum benefício prático para ninguém.

Para Seymour-Smith, Assim falou Zarathustra deve ser colocado entre os maiores livros já escritos. Ao mesmo tempo, afirma ser a mais maravilhosa fonte de idéias sobre a existência. Três dessas idéias se destacam: as noções, respectivamente, da morte de Deus, do homem completo (ou super-homem). Suas idéias expressas nesta obra sobre o super-homem versavam sobre um ser humano capaz de superar suas próprias deficiências, transcender os viciados valores do seu tempo e recusar-se a se conformar apenas por valorizar o conformismo.

Referências

SEYMOUR-SMITH, M. Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade: a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. 678 p.

WHITE, H. Nietzsche: a defesa poética da história no modo metafórico. In: __. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1995. p. 339-382.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *