Obras que marcaram o século XIX, parte 12: a economia e Malthus

por Leandro R. Vicente

Ensaio sobre o princípio da população, de Malthus: a demografia e as ciências econômicas

Sobre a origem e o desenvolvimento da economia, historicamente, ela está ligado ao apogeu do capitalismo. Não existiu uma ciência econômica grega, cristã ou renascentista. Certamente vários autores da Antigüidade clássica abordaram temas relacionados à economia, mas nenhum chegou a aproximar-se da elaboração de um pensamento sistemático, abstrato e científico dos mecanismos que atuam no cotidiano econômico das sociedades humanas. Príncipes e reis, desde a baixa Idade Média, atuaram segundo a orientação de seus conselheiros de fazenda, decretando leis com a finalidade de estimular a prosperidade de seus estados. Na maior parte dos casos, as medidas que hoje seriam chamadas de “política econômica” foram adotadas com a intenção de controlar o fluxo de metais preciosos, de forma a reter a maior quantidade possível deles dentro das fronteiras do estado. Com esse objetivo, o príncipe procurava favorecer as exportações de bens e dificultar as importações. Essas primeiras medidas de política econômica eram, porém, parciais e destacadas umas das outras. Nenhum pensador concebeu a ideia de um sistema econômico completo, que operasse segundo leis fixas e universais e cujo funcionamento fosse, portanto, suscetível de ser compreendido e alterado de acordo com a vontade dos dirigentes.

A primeira escola de pensamento que talvez tenha começado a considerar a atividade econômica de maneira global, embora de forma muito primitiva, era a formada por um grupo de autores franceses, os fisiocratas. O nascimento da economia como verdadeira ciência tem, contudo, uma data e um motivo muito precisos: a publicação do livro An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações), do britânico Adam Smith, em 1776. Uma nova visão do homem derivou dessa obra fundamental da economia. Ao descartar outros pontos de vista sobre o ser humano e privilegiar o ponto de vista econômico, Adam Smith teve a ideia original segundo a qual o sistema de mercado, sob um caos aparente, continha um elemento de ordem graças ao qual a atividade particular de inúmeros indivíduos que buscavam o proveito próprio resultava no benefício de todos. Apresentava-se pela primeira vez, de forma convenientemente arrazoada, a ideia de progresso no que se refere à satisfação das necessidades materiais humanas.

Muito se escreveu depois contra a concepção reducionista do homo economicus de Adam Smith. Considerar o ser humano como motivado apenas por ambições econômicas, como indivíduo egoísta que tende a satisfazer suas próprias necessidades particulares acima de todas as outras considerações, pode parecer moralmente perverso, e cientificamente falso. Mas Adam Smith não visava a esse reducionismo. Suas concepções eram muito mais abrangentes e humanísticas. Os que provavelmente se excederam na ideia de homem como homo economicus foram os grandes autores britânicos da primeira metade do século XIX, que mostravam a economia como ciência pessimista, integrada por preceitos fechados, leis de ferro que acorrentavam o ser humano e o reduziam a joguete de leis econômicas inexoráveis.

O prestígio alcançado no começo do século XIX pelas ciências naturais levou os pensadores das ciências humanas a formularem para essas ciências leis tão rigorosas e exatas como as que Newton havia proposto para a física. Era preciso encontrar um fundamento matemático para o comportamento humano no domínio econômico. Mas o homem, objeto de estudo das ciências sociais, parecia inapreensível pelos instrumentos de medição, e seu comportamento mostrava-se impossível de ser abarcado por um sistema de leis rígidas, como as que regem o mundo físico. Nessas circunstâncias, a brilhante descoberta de Smith de que o comportamento humano no mercado se encaminha para a otimização dos recursos disponíveis, independentemente das vontades individuais, como se uma “mão invisível” dirigisse todo o processo e o encaminhasse para um fim, pôs nas mãos dos pensadores sociais um primeiro elemento humano capaz de ser controlado.

Enfim, parecia possível capturar o comportamento humano com uma rede matemática. A partir daquela primeira base aparentemente sólida, descoberta por Smith, grandes pensadores se dedicaram à elaboração de leis matemáticas, até construírem complexos sistemas de equações baseados, em última análise, no suposto comportamento invariável do homo economicus e no infalível aparecimento da “mão invisível”.

Os sucessores de Smith se propuseram criar um modelo de universo econômico livre de interferências humanas, no qual só foram consideradas leis imutáveis e independentes da vontade humana, como no modelo de universo físico elaborado pelos cientistas do século anterior. Em poucas décadas, a economia era a mais “científica” das disciplinas humanas, já que tudo em seu corpo teórico parecia explicar-se graças a leis universais expressas na forma de equações. Normas irremovíveis, como a “lei de bronze dos salários”, foram enunciadas, e a economia recebeu, merecidamente, a designação de “ciência lúgubre”.

O universo fechado concebido pelos grandes economistas da primeira metade do século XIX, levados por uma orientação determinista, não podia deixar indiferentes outros pensadores, imbuídos de uma concepção mais otimista sobre a natureza humana e dispostos a destruir o que pensavam ser a falácia do homo economicus. A esse objetivo se dedicaram diversos autores, de tendências muito diversas, mas afinadas quanto à valorização do ser humano acima do sistema econômico. Entre eles destacou-se Karl Marx, que partilhou com seus adversários ideológicos a tendência a enunciar leis econômicas e sociais inexoráveis, embora de conteúdo oposto àquelas promulgadas pelos economistas da escola dominante, aos quais acusou de consagrar uma ideologia favorável ao capitalismo.

Em meados do século XIX, já se havia configurado uma escola econômica dominante, cujo berço e cientificidade aparente coincidiam, não casualmente, com o país e a ideologia dominantes no momento: o Reino Unido e o laissez-faire do capitalismo industrial. Em oposição a ela, porém, criaram-se também sistemas que defendiam uma verdade científica diferente, que apoiavam propósitos de mudança social, motivados, em última análise, por razões éticas — as mesmas que os economistas clássicos recusavam como anticientíficas.

O desenvolvimento da teoria econômica na obra de Malthus e seu impacto

Na década de 1870, produziu-se uma mudança de enfoque na ciência econômica. A chamada “revolução marginalista” deslocou a atenção dos teóricos do modelo fechado e pessimista do universo econômico projetado por Malthus e Ricardo para uma nova concepção de mercado, que empregava um instrumento matemático de análise e centrava seu interesse no estudo das preferências dos indivíduos como consumidores. O uso de uma expressão matemática para quantificar a capacidade de escolha consagrou a economia como a mais “exata” das ciências humanas. O conceito matemático de “maximização” nas preferências do público consumidor ultrapassou o domínio econômico e encontrou aplicação na psicologia e na sociologia. Os marginalistas levaram a teoria econômica ao auge de seu prestígio. Alguns autores denominam os sessenta anos que vão de 1870 a 1930 como “a idade de ouro da teoria econômica”.

Durante a profunda crise em que mergulhou o sistema econômico mundial na década de 1930, produziu-se uma nova mudança das concepções da ciência da economia: a revolução keynesiana. O economista John Maynard Keynes, seu principal representante, fez notar que os circuitos do dinheiro e do crédito, considerados pelos economistas clássicos como meras reproduções do circuito real de bens econômicos, podiam, ao contrário, experimentar desvios notáveis e enfraquecer os mecanismos econômicos reconhecidos, de forma a alterar o seu funcionamento.

O keynesianismo elaborou novos esquemas totalizadores da circulação econômica, que deslocaram o ponto de vista do pesquisador das sutis análises dos mecanismos de mercado para a observação do quadro econômico geral. Não se pode conhecer o grau de aceitação das novas ideias, que reclamavam a intervenção do estado para corrigir as disfunções do sistema econômico. Assim que o keynesianismo surgiu como corpo teórico, o mundo inteiro se entregou à segunda guerra mundial. Os diversos estados mergulhados no conflito se empenharam então no objetivo primordial da sobrevivência.

Ao terminar a guerra, os estados já aplicavam as fórmulas keynesianas e intervinham freqüentemente na economia, por mais que as circunstâncias não fossem excepcionais, como as de uma guerra. Durante várias décadas, pareceu que, finalmente, a teoria econômica havia descoberto a fórmula, plenamente científica, que permitia a administração eficaz do sistema econômico. A decidida intervenção do estado, para vigiar e corrigir o funcionamento do sistema — que continuava a ser basicamente capitalista, fundado na livre iniciativa e nos mecanismos compensatórios do mercado — parecia ser capaz de garantir um crescimento econômico continuado, um maior bem-estar geral, uma progressiva correção das desigualdades econômicas e sociais, e, definitivamente, o progresso da humanidade, que ficava assim livre das crises periódicas em que se havia envolvido até então.

Nas décadas que se seguiram à segunda guerra mundial, tornou-se dominante a escola econômica denominada “síntese neoclássica”, que aplicava, em parte, as soluções marginalistas, na área que desde então passou a ser chamada “microeconomia”, e empregavam os postulados keynesianos à grande estrutura chamada então “macroeconomia”, que englobava a microeconomia do mesmo modo que na física as teorias de Einstein passaram a englobar as de Newton, superando-as sem desprezá-las. A síntese neoclássica era capaz de responder de forma adequada aos problemas gerais que o funcionamento econômico do mundo moderno formulava.
O economista e demógrafo britânico Thomas Malthus ficou conhecido sobretudo pela teoria segundo a qual o crescimento da população tende sempre a superar a produção de alimentos, o que torna necessário o controle da natalidade.

Thomas Robert Malthus nasceu entre 14 e 17 de fevereiro de 1766, em Rookery, Surrey, Inglaterra. Seu pai era amigo do filósofo David Hume e seguidor ardoroso de Jean-Jacques Rousseau. O jovem Malthus fez seus primeiros estudos na casa paterna e, em 1784, ingressou no Jesus College, de Cambridge, onde se formou quatro anos mais tarde. Ordenou-se sacerdote da Igreja Anglicana em 1797.

Em 1798, Malthus publicou anonimamente seu Essay on Population (Ensaio sobre a população), no qual afirma que a população cresce em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos aumenta em progressão aritmética. A solução para evitar epidemias, guerras e outras catástrofes provocadas pelo excesso de população, consistiria, segundo ele, na restrição dos programas assistenciais públicos de caráter caritativo e na abstinência sexual dos membros das camadas menos favorecidas da sociedade. Em 1820 publica Princípios de política econômica e, em 1827, Definições de economia política.

Malthus era um pessimista que considerava a pobreza como um destino ao qual o homem não pode fugir. Sua obra foi ao mesmo tempo criticada e aplaudida. Enquanto alguns setores da sociedade o acusavam de ser cruel, indiferente e até mesmo imoral, economistas de renome apoiavam suas teorias. Na segunda edição da obra, de 1803, Malthus modificou algumas teses mais radicais da primeira edição. Com o tempo, o “malthusianismo” foi incorporado à teoria econômica, atuando como freio de teses mais otimistas. Na segunda metade do século XX, os problemas demográficos mundiais revitalizaram as concepções de Malthus, embora a agricultura intensiva tenha permitido aumentos de produção muito maiores do que os previstos por ele.

A partir de 1805 Malthus tornou-se professor de história e economia política em Haileybury. Eleito membro da Royal Society em 1819, nos anos seguintes recebeu grande número de homenagens e honras acadêmicas. Malthus morreu em Saint Catherine, Somerset, em 23 de dezembro de 1834.

Para Seymour-Smith, a grande falácia cometida pelos malthusianos e pelo próprio Malthus foi aplicar uma lei econômica estática sobre um período de tempo. De fato, continua, o progresso técnico passou a permitir que um número maior de pessoas vivesse do mesmo pedaço de terra. Mas os chamados profetas do caos poderiam dizer que a aparente reversão das profecias de Malthus não pode ser aplicada ao futuro. Para isso, o autor cita o exemplo dos remédios que os países subdesenvolvidos importam dos países desenvolvidos, causando uma queda em sua taxa de mortalidade, enquanto as taxas de natalidade continuam subindo. Afirma que a China contemporânea adotou parcialmente a teoria de Malthus, mas que talvez o problema deve ser resolvido de outro modo. O uso da teoria de Malthus como argumento a favor de maus-tratos e de falta de caridade, para Seymour-Smith, parece que vem se enfraquecendo.

Referências

SEYMOUR-SMITH, M. Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade: a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. 678 p.

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