Obras que marcaram o século XIX, parte 13: a psicologia e Freud

por Leandro R. Vicente

A interpretação dos sonhos, de Freud: um novo rumo para a psicologia

No final do século XIX, Sigmund Freud formulou a teoria psicanalítica, que, centrada na investigação dos mecanismos mentais inconscientes, esboçou uma explicação geral da estrutura da personalidade. A psicanálise elaborou também uma terapêutica específica, que foi modificada e aperfeiçoada pelos seguidores de Freud. Basicamente, a teoria psicanalítica postula a existência de mecanismos inconscientes de repressão que, ao impedirem a manifestação de conflitos internos entre as diferentes instâncias da personalidade, dão lugar a diversos transtornos.

A cultura do século XX muito deve a Sigmund Freud, psiquiatra e neurologista austríaco, criador da psicanálise, cujos fundamentos teóricos e aplicação prática tornaram-se fonte inesgotável para a compreensão do psiquismo humano e influenciaram a arte, a literatura e outros campos do conhecimento.

Freud dedicou-se à clínica psiquiátrica a partir de 1882, embora relutasse em abandonar a pesquisa. Sentindo as limitações de Viena no tocante às possibilidades de aperfeiçoamento, planejou uma viagem a Paris a fim de assistir aos cursos proferidos por Jean-Martin Charcot. Para tanto, dispôs-se a obter o mestrado em neuropatologia, o que conseguiu em 1885. No mesmo ano ganhou bolsa para um período de especialização em Paris. O encontro com Charcot foi fundamental no desenvolvimento da obra de Freud. Segundo seu próprio relato, foi Charcot quem lhe chamou a atenção para as relações existentes entre a histeria e a sexualidade, tese de que nunca abriu mão. Ainda em Paris, Freud concebeu o plano de um trabalho destinado a estabelecer uma distinção entre as paralisias orgânicas e as paralisias histéricas. A tese de Charcot, de que a histeria não era uma doença mental exclusiva da mulher, foi inteiramente absorvida por Freud, o que lhe valeu violentas críticas dos meios acadêmicos de Viena, tão logo a expôs por ocasião de seu regresso.

Durante o período compreendido entre 1882 e 1896 foi intensa a colaboração entre Freud e Josef Breuer, que criara o método catártico e descobrira a íntima relação existente entre os sintomas histéricos e certos traumas de infância. Freud teve a oportunidade de conhecer a experiência de Breuer num caso de histeria cujos sintomas enfraqueciam à medida que a paciente, hipnotizada, descrevia os fatos ocorridos na época em que contraíra a doença. Publicou, em colaboração com Breuer, dois trabalhos, dos quais o mais célebre é Estudos sobre a histeria, de 1895, que marca o início de suas investigações psicanalíticas. Pouco depois, Freud rompeu com Breuer e substituiu a hipnose pelo processo da livre associação de ideias, o que lhe permitiu isolar e estudar os fenômenos de resistência (mecanismo de defesa que o paciente apresenta ao sentir que se revelam suas experiências recalcadas) e de transferência (o vínculo emocional entre o paciente e o analista). Desde então os dois fatores passaram a formar uma peça central na técnica da psicanálise.

Em 1897 passou a observar a natureza sexual dos traumas infantis causadores das neuroses e começou a delinear a teoria do chamado complexo de Édipo, segundo o qual seria parte da estrutura mental dos homens o amor físico pela mãe e o ímpeto de assassinar o pai. Na luta contra esse complexo tanto os homens podiam desembocar na neurose como na superação, em si mesmos, de ideias herdadas, e no impulso de refazer o mundo. Nesse mesmo ano, chamou a atenção sobre a importância dos sonhos na psicanálise.

A primeira obra psicanalítica propriamente dita de Freud foi A interpretação dos sonhos, de 1900, por ele considerado seu principal trabalho, ao qual se seguiram Psicopatologia da vida cotidiana (1904) e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), entre outras obras.

Depois de um período de isolamento, Freud fundou a Sociedade Psicanalítica de Viena em 1908, com o pequeno grupo que semanalmente com ele se reunia. Ocorreu, então, o contato com Eugen Bleuler e com Carl Gustav Jung. O interesse revelado por Bleuler, um dos mais notáveis psiquiatras da época, pela psicanálise representou uma espécie de reconhecimento do valor das técnicas e doutrinas freudianas. No mesmo ano, realizou-se o primeiro congresso de psicanálise em Salzburg, onde se decidiu a publicação de um anuário dirigido por Freud e Bleuler, cujo redator-chefe era Jung. Entre 1911 e 1913 ocorreram várias defecções no seio da sociedade. Adler e Jung se afastaram e, com este último, toda a chamada escola de Zurique separou-se de Freud. O afastamento de Jung era previsto, especialmente após desentendimento com Karl Abraham acerca da natureza das psicoses, quando este adotou a perspectiva freudiana, frontalmente oposta à de Bleuler. Em 1911 realizou-se o Congresso de Weimar.

No trabalho de Freud estão intimamente ligados os aspectos clínico, teórico e técnico. Seu método de livre associação tornou-se essencial à técnica terapêutica e também importante instrumento de pesquisa psicológica. Dentre suas obras, destacam-se, além das já citadas: Totem e tabu (1913), em que examina os problemas da antropologia social à luz da psicanálise; O mal-estar da civilização (1930), em que expõe toda uma teoria sobre a evolução social da humanidade; e Moisés e o monoteísmo (1939), seu último livro, escrito aos 83 anos. A ascensão do nazismo e as crescentes perseguições aos judeus atingiram Freud. Inicialmente, porém, ele rejeitou o convite para instalar-se no Reino Unido e preferiu continuar em Viena. Com o agravamento da pressão nazista, porém, e graças à ajuda financeira de Marie Bonaparte, Freud mudou-se para Londres, onde morreu, em 23 de setembro de 1939. Trabalhava a esse tempo, em colaboração com sua filha Anna, na redação de uma obra dedicada à análise da personalidade de Hitler.

Para Seymour-Smith, quando A Interpretação dos sonhos surgiu, em 1900, todos os estudos anteriores de Freud funcionaram como uma útil metáfora para propósitos mais sutis e menos reducionistas. A inconsciente já não era aquela força tão dinâmica e cruel como parecera na teoria. Mais do que qualquer outro, foi esse livro que chamou a atenção para Freud fora da Alemanha e da Áustria. Mas, diz o autor, ao mesmo tempo em que ele protegera seu novo movimento, tornava-se mais ansioso por defender as bases científicas de suas ideias. O grau de hostilidade contra as suas ideias, posteriormente, foi bastante exagerado por ele. É certa, continua, que elas não foram bem recebidas, e parte disso se deveu ao anti-semitismo de austríacos e alemães.

Segundo Seymour-Smith a verdade é que Freud revolucionou o modo como o ser humano vê a si mesmo ou o modo como ele se recusa a ver a si mesmo. Nos dias atuais, o sistema de Freud ainda mantém sua influência mais solidamente do que a maioria dos sistemas dos últimos 150 anos. Para o autor, o destino da psicanálise é incerto, mas nesse sentido vale a pena mencionar que o próprio Freud era de opinião que finalmente causas físicas e estados mentais seriam descobertas.

Referências

SEYMOUR-SMITH, M. Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade: a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. 678 p.

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